O Primeiro Retrato de Cleópatra


Meu nome é Cleópatra e, antes de governar o Egito com autoridade inquestionável, eu era apenas uma jovem princesa com uma ambição monumental e um método brilhante — quase mágico — de eternizar momentos. Se você vivesse naquela época, certamente não chamaria isso de celular ou câmera fotográfica, mas a intenção era a mesma: eu estava obstinada a produzir a imagem mais marcante e imponente de todo o reino.
Naquele dia, posicionei-me no pátio monumental do nosso palácio em Alexandria. As gigantescas muralhas de pedra pareciam tocar o céu azul escaldante, criando sombras nítidas e dramáticas sobre o piso de mármore. Ajustei com extremo rigor o meu uraeus, o ornamento real com a serpente de ouro que simbolizava a soberania legítima sobre a nação. Viver na corte exigia obedecer a rígidos protocolos e convenções aristocráticas, mas eu pretendia utilizá-los a meu favor.
Segurando meu engenhoso espelho de bronze polido contra a luz solar para compor o ângulo ideal, visualizei como a posteridade me enxergaria. O tecido listrado do meu nemes, o toucado tradicional dos monarcas, caía perfeitamente sobre meus ombros. O delineador de cálamo e carvão destacava meu olhar determinado, harmonizando-se com o pesado colar de contas douradas. Cada detalhe visual funcionava como propaganda política: aquela imagem precisava proclamar que eu não era apenas uma herdeira ornamental, mas uma futura soberana pronta para assumir o trono.
Contudo, a disputa pelo poder exigia mais do que aparências. Meu irmão mais velho, Ptolomeu, conspirava abertamente contra mim. Julgando-me frágil e incapaz, ele me confinou em meus aposentos com sentinelas vigiando cada saída. Trancafiada, percebi que o prestígio não se conquista com resignação; era o momento de demonstrar verdadeira astúcia.
Elaborei, então, a encenação mais audaciosa de toda a minha trajetória. Com a cumplicidade de um servo de total confiança, providenciei um luxuoso tapete de tecido denso e oriental. Enrolei-me cuidadosamente dentro dele, transformando meu próprio corpo em um pacote discreto. Quando ele ergueu o fardo e hesitou em meio ao perigo da travessia clandestina, assegurei-lhe que o risco valeria a pena: estávamos a caminho do general romano Júlio César.
Ao ser desenrolada perante o estadista romano, a surpresa deu lugar à admiração imediata. César compreendeu instantaneamente que eu não era uma figura passiva, mas uma estrategista brilhante disposta a forjar alianças históricas. Aquele instante, congelado para sempre na memória do mundo antigo, tornou-se o meu retrato definitivo de liderança e coragem.
- uraeus:
- Ornamento real sagrado em forma de serpente ereta (naja), usado na fronte dos monarcas egípcios como emblema supremo de autoridade e proteção divina.
- protocolos:
- Conjunto formal de regras, condutas e rituais que disciplinam o comportamento e as cerimônias na corte de um governo.
- nemes:
- Toucado de tecido listrado típico da indumentária dos faraós, que cobria a cabeça e caía sobre os ombros, simbolizando o poder real.
- soberana:
- Mulher que detém o poder supremo de liderança em uma monarquia; governante com autoridade suprema e independente sobre seu território.
- aposentos:
- Cômodos ou quartos reservados para residência e descanso de uma pessoa em um palácio ou casa nobre.
- prestígio:
- Consideração elevada, renome, admiração ou influência que alguém desfruta perante a sociedade ou seus pares.
- astúcia:
- Capacidade de usar inteligência perspicaz, engenho e sagacidade para alcançar objetivos difíceis ou contornar adversidades.
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Sobre este texto de ficção para o 6º ao 8º ano
“O Primeiro Retrato de Cleópatra” é um texto de ficção sobre Antigo Egito, escrito para o 6º ao 8º ano. A leitura leva cerca de 3 minutos (401 palavras). O texto inclui um quiz interativo e uma atividade para imprimir com perguntas de compreensão e gabarito.


