Uma Selfie Através do Tempo


Imagine a cena: meu nome é Cleo e eu estou dando um rolê pela Atenas antiga — tipo, lá por volta de 400 a.C. Normalmente, eu passo o dia gravando dancinhas para as redes sociais, mas como a viagem no tempo não veio acompanhada de conexão Wi-Fi, precisei improvisar na minha visita.
Azeitonas e Oráculos
Minha mãe precisava de azeitonas para o jantar. Então, lá estava eu caminhando pela ágora, que funcionava como a praça pública central deles, desviando de homens vestidos com túnicas e tentando não pisar em nada nojento. Aproveitei para sacar o celular porque, convenhamos, uma oportunidade de selfie com a estética da Grécia Antiga não se perde! A Acrópole parecia especialmente majestosa ao fundo. Clique!
Foi aí que, do nada, um senhor com uma barba volumosa o bastante para abrigar uma família inteira de pombos me interrompeu.
— Jovem — trovejou ele —, que artefato estranho é esse que você empunha?
Suspirei internamente. Claro. Tinha que ser Sócrates.
A Sabatina Socrática da Selfie
— É um telefone — expliquei, tentando contorná-lo. — Eu tiro fotos com ele. Sem filtro.
Ele ergueu uma sobrancelha tão alto que ela quase desapareceu sob a linha do cabelo.
— Fotos? Mas o que é uma imagem? Seria ela a forma verdadeira do objeto ou meramente uma sombra da sua essência?
Gente, eu só queria comprar azeitonas.
— Ahn, é tipo... uma cópia? — respondi, torcendo para que a resposta soasse vaga o bastante para encerrar o assunto.
Em vez disso, Sócrates engatou um monólogo profundo sobre percepção e realidade, usando as colunas do Partenon como analogia. Parecia uma aula cansativa de Filosofia ao ar livre, só que cercada por cabras balindo. Alguns transeuntes começaram a se aglomerar ao redor, fascinados pela indagação inusitada.
— E qual é o propósito de capturar essas "imagens", como você as denomina? — insistiu o filósofo.
Achei melhor ser sincera:
— Mostrar para as pessoas onde estou e o que estou fazendo.
Ele acariciou a barba grisalha.
— Então sua ambição é buscar atenção? Mas o que é a atenção senão uma ilusão efêmera?
Minha cabeça começou a latejar. É sempre assim que funciona o pensamento filosófico?
A Sabedoria do Clique
Decidi virar o jogo antes de ter uma síncope.
— Tudo bem, Sócrates — disse eu, apontando a lente na direção dele. — Sorria! Vou tirar uma foto sua.
Ele ficou visivelmente desconcertado. A multidão soltou risinhos abafados.
Clique! Mostrei a tela reluzente para ele. Sócrates fitou o próprio rosto digitalizado, depois olhou para as próprias mãos calejadas. Um sorriso vagaroso surgiu em seus lábios.
— Fascinante — murmurou ele. — Talvez haja algum valor no ato de registrar um instante efêmero, compartilhando a própria existência com os outros. — Ele fez uma pausa reflexiva. — Embora eu ainda questione a autenticidade dessa representação.
Dei de ombros com um suspiro de alívio:
— Tanto faz, mestre! Preciso comprar as azeitonas antes que o mercado feche.
Enquanto me afastava, ainda pude ouvi-lo resmungar sobre a matéria invisível dos pixels. Pelo visto, mesmo na Grécia Antiga, uma simples selfie nunca é apenas uma foto: é sempre o estopim para um inflamado debate existencial.
- ágora:
- Espaço público central nas cidades-Estado gregas antigas, utilizado para feiras livres, reuniões cívicas e discussões políticas.
- essência:
- A natureza fundamental mais básica e invariável de um ser ou objeto, aquilo que faz algo ser o que realmente é.
- percepção:
- Ato de tomar conhecimento de algo por meio dos sentidos ou da mente; forma como interpretamos a realidade externa.
- indagação:
- Pergunta investigativa ou questionamento feito para descobrir algo a fundo.
- efêmera:
- Que tem pouca duração; passageira, transitória.
- desconcertado:
- Surpreso, embaraçado ou que perdeu momentaneamente a postura habitual diante de algo inesperado.
- filosófico:
- Relativo à investigação metódica sobre questões fundamentais da existência, da verdade, dos valores e do conhecimento.
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Sobre este texto de ficção para o 6º ao 8º ano
“Uma Selfie Através do Tempo” é um texto de ficção sobre Grécia Antiga, escrito para o 6º ao 8º ano. A leitura leva cerca de 4 minutos (527 palavras). O texto inclui um quiz interativo e uma atividade para imprimir com perguntas de compreensão e gabarito.


