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As sementes na mochila

PicoBuddy9º anoConto6 min de leitura
Ilustração de As sementes na mochila

O zíper emperrado da mochila de lona emitiu um rangido áspero antes de finalmente ceder. Mariana puxou de dentro três envelopes pardos, amassados e sem qualquer identificação gráfica além de rabiscos feitos a lápis. Lucas, segurando a prancheta de alumínio com a pauta de cobertura do grêmio estudantil, aproximou-se com o cenho franzido. Atrás deles, a faixa de terra batida entre o muro dos fundos da escola e o alambrado da quadra parecia tudo, menos um terreno fértil. Era um retângulo comprido, pontilhado por cascalho, restos de alvenaria e tufos secos de capim que haviam resistido ao verão.

— O que exatamente tem aí dentro? — perguntou Lucas, apontando a caneta para os pacotes de Mariana. — O professor de ciências disse que a diretoria autorizou o uso do espaço, mas o grêmio prometeu entregar um canteiro organizado para a mostra cultural do próximo mês. Se a gente não mostrar mudas verdes e alinhadas para a foto do mural, o pessoal vai achar que o projeto nem começou.

Mariana desdobrou a aba do primeiro envelope com um cuidado quase cerimonial. Dentro, misturavam-se grãos escuros, pequenas esferas rugosas e cápsulas com fiapos secos, semelhantes a plumas em miniatura.

— São sementes de espécies pioneiras que coletei no barranco da antiga linha de trem e em dois terrenos baldios perto de casa — explicou ela, agachando-se sobre a terra avermelhada. — Tem maria-pretinha, fedegoso, picão e algumas que ainda não consegui classificar no guia de botânica. Se nós simplesmente revolvermos essa terra compactada e jogarmos sementes de hortaliça de mercado, nada vai brotar sem irrigação constante e adubo químico. Essas aqui sobrevivem em solo pobre. Elas quebram a dureza da terra, atraem polinizadores e começam o ciclo sozinhas.

Lucas soltou um suspiro audível e consultou o cronograma grampeado em sua prancheta. A comunidade do bairro estava habituada a ver aquele canto da escola como um depósito informal de entulho. Dois meses antes, funcionários da limpeza haviam retirado dali pedaços de telhas, carcaças de ventiladores e garrafas plásticas. Para Lucas, a intervenção do 9º ano precisava comunicar ordem, controle e produtividade tangível. Ele imaginava fileiras simétricas de alface crespa, mudas viçosas de couve e talvez alguns pés de tomate estaqueados em bambu, algo que os moradores pudessem reconhecer imediatamente como uma horta bem-sucedida.

— Mariana, seja realista — ponderou Lucas, sentando-se sobre uma mureta de concreto. — Se nós plantarmos sementes de beira de estrada, o resultado inicial vai parecer exatamente o que as pessoas chamam de mato. Para quem olha de fora da cerca, vai dar a impressão de que a escola limpou o lixo apenas para deixar o terreno abandonado de novo. As famílias querem ver vegetais, algo que possa ser colhido ou que embeleze a entrada do ginásio. O impacto visual define o apoio que vamos receber para comprar mangueiras e ferramentas.

— E o que adianta plantar alface se ninguém vier regar durante o recesso de três semanas no meio do semestre? — retrucou Mariana, erguendo os olhos castanhos, firmes e céticos. — A horta convencional vai esturricar sob o sol. O solo deste canto está completamente desestruturado, cheio de cal e cimento antigo. As plantas que você comprou na agropecuária precisam de um substrato que simplesmente não existe aqui. A minha proposta não é produzir salada para a semana que vem, mas restaurar o chão para que, daqui a dois anos, qualquer coisa consiga crescer sem depender de nós a cada vinte e quatro horas.

Outros dois colegas de turma, Tiago e Beatriz, chegaram trazendo duas enxadas de lâminas gastas e um regador de plástico vermelho. Ao ouvirem o impasse, nenhum dos dois tomou partido imediato. Tiago observou a poeira fina que se erguia a cada passo sobre a terra ressecada, enquanto Beatriz folheava o relatório impresso que Lucas pretendia afixar no mural da entrada.

Após um longo debate em que nenhum dos lados abandonou seus argumentos fundamentais, decidiram dividir a área em duas parcelas distintas. No setor mais próximo ao portão de entrada, onde a terra recebia alguma sombra da copa de uma mangueira vizinha, Lucas e Tiago cavaram leiras regulares, incorporaram um pouco de terra preta doada pela vizinhança e plantaram as mudas compradas de hortaliças. No trecho do fundo, mais árido e pedregoso, Mariana e Beatriz apenas escarificaram a superfície com a enxada, sem nivelar nem adubar, e espalharam a mistura heterogênea de sementes silvestres trazidas na mochila, cobrindo-as apenas com uma camada rala de folhas secas varridas do pátio.

Nas três semanas seguintes, o clima mostrou-se imprevisível. Uma tempestade de fim de tarde arrastou parte da cobertura vegetal morta espalhada por Mariana, enquanto o calor escaldante dos dias posteriores murchou rapidamente as folhas largas da couve de Lucas. Quando a comissão de avaliação da mostra cultural passou pelo local, o cenário não oferecia respostas simples. O canteiro de hortaliças exibia algumas folhas comidas por lagartas e caules inclinados pela sede; na área das sementes nativas, pequenas pontas verdes indistintas começavam a furar o chão ressecado, mas era impossível afirmar quais eram plantas ruderais resistentes e quais eram apenas invasoras oportunistas trazidas pelo vento.

Lucas fotografou os dois lados com a câmera emprestada pelo grêmio, mantendo um enquadramento neutro, e Mariana recolheu os envelopes vazios de volta para o fundo da mochila. Nenhum dos dois comemorou vitória, cientes de que a terra responderia em seu próprio ritmo, alheia à ansiedade do calendário escolar.

Glossário
pioneiras:
Plantas resistentes que conseguem se estabelecer em ambientes degradados, iniciando o processo de regeneração vegetal.
escarificaram:
Rasparam ou revolveram levemente a camada superficial da terra dura para facilitar a entrada de ar e água.
desestruturado:
Solo que perdeu sua textura original e porosidade, tornando-se incapaz de reter nutrientes e água de modo saudável.
ruderais:
Plantas que crescem espontaneamente em locais modificados pela atividade humana, como beiras de estradas e entulhos.
alvenaria:
Restos de construções compostos por tijolos, blocos, cimento ou argamassa.
leiras:
Camadas compridas de terra amontoada e adubada, preparadas para receber o plantio de mudas em linha.
substrato:
Meio físico e nutritivo onde a semente germina e as raízes das plantas se fixam para absorver nutrientes.
compactada:
Terra excessivamente prensada ou endurecida, o que dificulta o crescimento das raízes e a absorção de água.
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Sobre este texto de conto para o 9º ano

“As sementes na mochila” é um texto de conto sobre Projetos comunitários, escrito para o 9º ano. A leitura leva cerca de 6 minutos (898 palavras). O texto inclui um quiz interativo e uma atividade para imprimir com perguntas de compreensão e gabarito.

Este texto é gratuito?

Sim. Você pode ler “As sementes na mochila” gratuitamente online e baixar uma atividade em PDF com perguntas de compreensão e gabarito.

Para qual ano escolar é “As sementes na mochila”?

O texto foi escrito para o 9º ano: um texto de conto sobre Projetos comunitários, com leitura de aproximadamente 6 minutos (898 palavras).

O que acompanha este texto?

Um texto ilustrado, um glossário de termos importantes, perguntas de compreensão com gabarito e um quiz interativo.

Posso adaptar o texto para meus alunos?

Sim. Com uma conta gratuita, você pode usar o Remix para adaptar o texto a outro ano escolar ou traduzi-lo para outro idioma.