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O silêncio depois do aplauso

PicoBuddy9º anoConto6 min de leitura
Ilustração de O silêncio depois do aplauso

A reverberação das palmas no auditório da Escola Estadual Paineiras ainda vibrava no tablado de madeira quando as luzes principais foram acesas. No centro do palco, Lucas curvou a cabeça em um agradecimento ensaiado, exibindo aquele sorriso largo que parecia nascer sem esforço toda vez que um grupo de pessoas voltava a atenção para ele. À sua frente, a comissão de professores anotava considerações com acenos afirmativos, claramente impressionada com a desenvoltura da apresentação sobre o impacto dos microplásticos no córrego vizinho ao bairro.

Sete metros atrás da bancada dos jurados, na penumbra da cabine de projeção improvisada, Marina retirou os fones de ouvido e soltou o ar devagar. Seus dedos ainda guardavam a tensão de ter controlado os slides, ajustado o ganho do microfone quando a voz de Lucas oscilou e corrigido, em tempo real, a legenda de um dos gráficos de dispersão que quase fora projetado com a escala errada. Ela observou os colegas da turma se aglomerarem na beira do tablado para parabenizar Lucas. Era sempre assim: a palavra dita em voz alta tinha um peso reluzente, enquanto as horas de leitura de artigos áridos e a montagem das tabelas pareciam evaporar como vapor invisível.

Quando o auditório começou a esvaziar e as conversas se dispersaram pelo corredor, Lucas caminhou até a mesa técnica, girando o passador de slides entre os dedos com euforia contida.

— Você viu a cara do professor Marcos quando chegamos na estimativa de contaminação anual? — perguntou ele, apoiando-se no encosto da cadeira de Marina. — Ele parecia não acreditar que dois estudantes do nono ano tivessem chegado àquele nível de detalhamento.

— A metodologia foi rigorosa, Lucas. Foram três fins de semana cruzando relatórios públicos da vigilância sanitária com as amostras de água — respondeu Marina, organizando os cabos em voltas concêntricas sobre a mesa. Sua voz soou mais contida do que o habitual, não por desânimo, mas por uma cautela que vinha se acumulando ao longo das últimas semanas.

Lucas franziu a testa, percebendo a hesitação.

— Eu sei, Marina. Você praticamente desenhou a espinha dorsal de tudo. Eu só tentei não estragar a explicação.

— Não se trata de estragar ou fazer bonito — disse ela, voltando-se para encará-lo. O olhar de Marina não carregava raiva ostensiva, e sim uma lucidez que desarmava qualquer tentativa de piada rápida. — Quando o professor Marcos perguntou de onde tinha saído a correlação entre a turbidez da água e a presença de fibras sintéticas, você respondeu: “eu notei isso enquanto analisava as planilhas”. E não foi um deslize de momento, Lucas. Você usou a primeira pessoa três vezes durante as respostas da banca.

Um silêncio pesado assentou entre os dois, rompido apenas pelo zumbido distante do ventilador de teto. Lucas abriu a boca para contestar, talvez para dizer que o calor do momento ou o nervosismo da oratória o haviam empurrado para aquela formulação automática, mas as palavras travaram. Ele olhou para a prancheta de Marina, onde anotações manuscritas em caligrafia miúda preenchiam cada centímetro das margens dos artigos impressos. A ideia original da correlação havia surgido em uma tarde de quinta-feira, quando Marina insistiu que eles não deveriam descartar os dados discrepantes da segunda coleta, mesmo após ele ter sugerido que arredondassem os números para simplificar o roteiro.

— Eu não fiz por mal — murmurou Lucas, puxando uma cadeira e sentando-se em frente a ela. — No palco, a gente sente que precisa demonstrar total segurança o tempo todo. Se eu hesitasse ou parecesse incerto sobre o domínio do material, achei que a avaliação geral do nosso grupo cairia. Mas eu errei. Não era justo deixar parecer que a dedução analítica tinha sido só minha.

— O problema não é você falar bem no palco, Lucas. Você tem um protagonismo natural na comunicação, e o projeto precisava dessa clareza para prender a atenção das pessoas. O problema é achar que a síntese oral apaga o esforço estrutural que permitiu a fala existir. Ficar nos bastidores não significa ser indiferente ao crédito pelo próprio trabalho.

Eles permaneceram algum tempo em silêncio enquanto terminavam de desligar os equipamentos. A amizade entre os dois não se rompia por conta daquela conversa, mas os termos implícitos de convivência mudavam. Não se tratava de uma competição por aplausos, mas do reconhecimento necessário para que a parceria continuasse justa e viável.

Antes de saírem em direção à sala dos professores para entregar o arquivo definitivo para a supervisão pedagógica, Lucas pegou o relatório encadernado que seria arquivado na biblioteca da escola e encaminhado ao jornal mural. Na folha de rosto, os nomes de ambos constavam como autores, mas ele puxou uma caneta esferográfica do bolso e acrescentou, abaixo dos títulos, um parágrafo curto detalhando a divisão técnica das tarefas: a concepção do modelo analítico e a curadoria dos dados ficavam explicitamente creditadas a Marina, enquanto a articulação temática e a interlocução pública eram atribuídas a ele.

Marina observou a tinta secar sobre o papel timbrado. Não havia fanfarra nem público naquele gesto tardio, apenas a correção sóbria de um desequilíbrio. Eles fecharam a pasta e caminharam juntos pelo corredor vazio, onde os passos de ambos soavam com o mesmo peso regular no chão de cerâmica.

Glossário
reverberação:
Permanência ou reflexo de um som em um espaço após a sua emissão original; eco ou ressonância.
desenvoltura:
Facilidade, desembaraço ou agilidade para agir ou falar em público sem inibição.
áridos:
Textos ou assuntos secos, densos e difíceis de ler por exigirem grande esforço técnico.
metodologia:
Conjunto ordenado de métodos, procedimentos e regras utilizados em uma investigação científica.
turbidez:
Aspecto turvo ou falta de transparência de um líquido devido à presença de partículas suspensas.
protagonismo:
Papel principal ou de liderança ativa assumido por uma pessoa em determinada atividade ou situação.
curadoria:
Ato de selecionar, organizar, verificar e cuidar criticamente de dados ou conteúdos para um fim específico.
sóbria:
Atitude moderada, contida e sem exageros; que se expressa de maneira simples e séria.
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Sobre este texto de conto para o 9º ano

“O silêncio depois do aplauso” é um texto de conto sobre Reconhecimento e Amizade, escrito para o 9º ano. A leitura leva cerca de 6 minutos (869 palavras). O texto inclui um quiz interativo e uma atividade para imprimir com perguntas de compreensão e gabarito.

Este texto é gratuito?

Sim. Você pode ler “O silêncio depois do aplauso” gratuitamente online e baixar uma atividade em PDF com perguntas de compreensão e gabarito.

Para qual ano escolar é “O silêncio depois do aplauso”?

O texto foi escrito para o 9º ano: um texto de conto sobre Reconhecimento e Amizade, com leitura de aproximadamente 6 minutos (869 palavras).

O que acompanha este texto?

Um texto ilustrado, um glossário de termos importantes, perguntas de compreensão com gabarito e um quiz interativo.

Posso adaptar o texto para meus alunos?

Sim. Com uma conta gratuita, você pode usar o Remix para adaptar o texto a outro ano escolar ou traduzi-lo para outro idioma.