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Dois Lados da Mesma Final

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Ilustração de Dois Lados da Mesma Final

O silêncio matinal na sala do grêmio estudantil da Escola Municipal Rio Branco contrastava com a vibração ensurdecedora que tomara a quadra poliesportiva na tarde da última sexta-feira. Sobre a mesa de reuniões, repousavam dois cadernos de anotações abertos. Ambos tinham a mesma missão: registrar o lance decisivo da final do campeonato de futsal do nono ano para o jornal mural da escola. Antes de qualquer impressão ser autorizada pelo professor coordenador, cabia à equipe editorial confrontar os fatos. O problema era simples e perturbador: lendo os dois textos, parecia que Lucas e Marina haviam testemunhado partidas completamente diferentes.

Lucas, ala titular do 9º ano A, redigira sua crônica logo após o apito final, ainda com o suor colado à camisa verde e o pulso acelerado pela sensação de derrota iminente. Seu relato colocava o foco inteiramente na conduta do árbitro e no choque físico que definira a partida nos últimos dez segundos.

"O contra-ataque do 9º A começou perfeito", escreveu Lucas em sua narrativa. "Restavam menos de quinze segundos no cronômetro digital do painel. A bola sobrou limpa para mim depois que desarmamos a saída deles na meia-quadra. Eu tinha espaço para avançar pelo corredor esquerdo, o ângulo ideal para o chute cruzado. Foi exatamente quando me preparei para o arremate que senti o tranco. Não foi uma disputa de ombro com ombro permitida pela regra; foi um empurrão deliberado na altura da costela, desferido pelo fixo adversário que vinha embalado pela lateral. A força do impacto me projetou contra a linha divisória, fazendo com que a sola de borracha do meu tênis perdesse completamente a aderência no piso escorregadio. A bola escapou mansamente pela linha de fundo enquanto eu caía. O árbitro, posicionado quase na linha central e com a visão encoberta por três atletas que voltavam em disparada, apenas gesticulou mandando o jogo seguir. O ginásio inteiro viu a falta. Se a infração tivesse sido apitada, teríamos dois tiros livres diretos a nosso favor, tempo suficiente para empatar e levar a decisão para as penalidades. Perdemos não pela tática, mas pela omissão de quem deveria zelar pelo cumprimento rígido das regras."

Do outro lado da mesa, as anotações de Marina, capitã e defensora do 9º ano B, contavam outra história. Seu texto, redigido com calma e apoiado em tópicos organizados após o banho e a conversa com a equipe, destacava a leitura espacial e a precisão do desarme que assegurara o troféu aos azuis.

"A vitória na final resultou da disciplina defensiva que treinamos exaustivamente durante todo o bimestre", argumentava Marina em seu relatório. "Faltando meio minuto para o término, quando nossa posse foi interceptada, nossa retaguarda não entrou em pânico. Sabíamos que a jogada característica do time adversário era abrir a bola para a velocidade do Lucas pela esquerda. Eu fiz a cobertura pelo centro e acompanhei a corrida dele sem me precipitar. Quando ele adiantou a bola em demasia para tentar o drible em velocidade, percebi a abertura. Fiz a investida em diagonal visando unicamente a trajetória da bola. Minha chuteira tocou a redonda com a ponta dos dedos antes de qualquer contato corporal acontecer. O Lucas perdeu o equilíbrio por causa da própria inércia e do excesso de velocidade que impôs à corrida sobre a faixa pintada da quadra, que todo mundo sabe que acumula condensação de umidade nos dias quentes de primavera. Não houve projeção de braço, nem intenção de derrubar. O árbitro estava perfeitamente alinhado com o lance, a cerca de oito metros de distância, e assinalou tiro de meta sem hesitar, porque viu que a bola saiu pelo fundo tocada exclusivamente pelo adversário. A reclamação do 9º A é apenas o reflexo da frustração de ver um plano individual ser frustrado por um desarme tecnicamente perfeito no último instante."

Diante dos dois cadernos, a equipe do jornal encontrava-se em um impasse fascinante. Nenhum dos dois autores mentia deliberadamente; cada um havia registrado com veemência aquilo que seus sentidos e sua posição física na quadra permitiram captar. Lucas sentira a dor física da queda e a interrupção brusca de um movimento de ataque que parecia promissor, interpretando a aproximação veloz de Marina como uma agressão ilegítima. Por sua vez, Marina concentrara toda a sua atenção motora no objeto em disputa, guardando na memória tátil a sensação precisa de ter tocado a bola antes de o adversário tombar.

As marcas físicas na quadra também contavam histórias silenciosas. Havia um risco cinzento de borracha na pintura verde clara, exatamente três passos antes da linha de fundo, indicando uma frenagem abrupta ou um deslizamento involuntário. Mais adiante, próximo ao banco de reservas, uma garrafa plástica tombada revelava uma poça d'água diminuta, que os fiscais de linha haviam tentado secar com panos improvisados durante o pedido de tempo técnico anterior.

Com as duas versões lado a lado e os vestígios da quadra analisados, os editores perceberam que a reportagem não precisava declarar quem tinha a razão absoluta. A verdadeira riqueza daquela edição escolar residia justamente em expor como o calor do momento, a localização de cada testemunha e os interesses em jogo moldam interpretações conflitantes sobre os mesmíssimos dez segundos de uma final.

Glossário
impasse:
Situação difícil em que não se consegue chegar a um acordo ou solução rápida; encruzilhada.
condensação:
Acúmulo de gotículas de água sobre superfícies frias provocado pela umidade do ar quente.
deliberado:
Feito de propósito, com intenção clara e planejamento prévio.
inércia:
Tendência natural de um corpo em movimento de continuar se movendo na mesma direção e velocidade.
veemência:
Força, intensidade ou entusiasmo marcante na defesa de uma opinião ou ponto de vista.
aderência:
Capacidade de fixação ou atrito entre duas superfícies em contato, como a sola de um calçado e o chão.
retaguarda:
Setor defensivo posicionado atrás das linhas de ataque em uma formação tática esportiva.
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Sobre este texto de conto para o 9º ano

“Dois Lados da Mesma Final” é um texto de conto sobre Perspectiva, escrito para o 9º ano. A leitura leva cerca de 6 minutos (857 palavras). O texto inclui um quiz interativo e uma atividade para imprimir com perguntas de compreensão e gabarito.

Este texto é gratuito?

Sim. Você pode ler “Dois Lados da Mesma Final” gratuitamente online e baixar uma atividade em PDF com perguntas de compreensão e gabarito.

Para qual ano escolar é “Dois Lados da Mesma Final”?

O texto foi escrito para o 9º ano: um texto de conto sobre Perspectiva, com leitura de aproximadamente 6 minutos (857 palavras).

O que acompanha este texto?

Um texto ilustrado, um glossário de termos importantes, perguntas de compreensão com gabarito e um quiz interativo.

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