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O mural que ninguém assinou

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Ilustração de O mural que ninguém assinou

Na manhã de uma sexta-feira chuvosa, a parede de compensado que isolava as obras do bloco B da Escola Municipal Veredas amanheceu transformada. O tapume de madeira crua, antes coberto por manchas de poeira e avisos rasgados da secretaria, exibia uma composição visual impressionante: raízes escuras e retorcidas emergiam do rodapé, transformando-se gradativamente em cabos de fibra ótica e vigas metálicas que sustentavam a copa de uma figueira imensa. Entre as folhagens desenhadas em detalhes minuciosos, pequenas aves de plumagem anil pareciam observar o pátio. No canto inferior direito, onde todos esperavam encontrar uma assinatura, havia apenas um retângulo em branco contornado com fita adesiva verde.

Marina e Otávio, responsáveis pela edição do jornalzinho impresso do nono ano, o Correio Escolar, pararam diante do painel antes do primeiro sinal. A coordenadora pedagógica, dona Heloísa, já estava lá, de braços cruzados, sem saber se elogiava o virtuosismo técnico ou se advertia os culpados pelo uso não autorizado do compensado. A reportagem da próxima semana já tinha um tema evidente: quem havia realizado aquela intervenção monumental durante a noite?

A primeira suposição do grêmio estudantil recaiu sobre Diego, o estudante mais conhecido do colégio por suas ilustrações em cadernos e murais de feiras de ciências. Quando Marina o abordou na entrada da biblioteca, Diego apenas riu e abriu a mochila para mostrar seu estojo. "Eu adoraria dizer que fui eu, mas na quinta-feira fiquei a tarde toda no treino de handebol até as dezenove horas, e depois fui direto com meu irmão para o dentista. Além disso, meu traço é estilizado, tipo quadrinho japonês. Quem fez essas folhas usou um bico de pena com nanquim ou uma caneta técnica de precisão que eu nem sei segurar direito", explicou ele, apontando para o próprio dedo manchado de grafite comum.

Diante da negativa sustentada pelo álibi do treino, Marina e Otávio decidiram analisar o mural não com base em fofocas de corredor, mas a partir das evidências materiais deixadas na própria cena. Munida de um bloco de notas e uma câmera emprestada pelo laboratório de informática, a dupla aproximou-se da parede durante o intervalo das dez horas.

A primeira pista tangível estava na base do compensado. As raízes haviam sido estruturadas com carvão vegetal e sombreadas com movimentos amplos e vigorosos, revelando alguém com boa amplitude de braço e familiaridade com desenho gestual rápido. Em contrapartida, as vigas centrais e os galhos metálicos mostravam camadas espessas de tinta guache e acrílica fosca, aplicadas com espátula e trincha larga, criando relevo palpável sobre a madeira porosa. Por fim, os pássaros e os fios minúsculos exibiam contornos finos, executados com caneta permanente de ponta milimétrica, exigindo paciência microscópica e tempo concentrado.

"Olhe aqui embaixo", sussurrou Otávio, abaixando-se rente ao piso de cimento queimado. "Não há pingos de tinta azul nem preta, mas achei três pontas de fita crepe verde-esmeralda grudadas na beirada da lixeira." Ele ergueu as tiras coladas. A fita verde era um suprimento incomum; o almoxarifado geral distribuía exclusivamente fita parda e fita adesiva transparente. O único setor da escola que recebera rolos daquela tonalidade específica no último bimestre fora o projeto interdisciplinar de maquetes topográficas, coordenado pela professora Valéria na sala de artes.

Os dois foram até a sala de artes logo após o almoço. A professora Valéria conferiu a planilha de saída de materiais da quinta-feira. Quatro estudantes haviam retirado materiais para adiantar trabalhos pendentes no contraturno: Lúcia, aluna nova do nono ano B; Samuel, monitor do laboratório de botânica; e a dupla formada por Caio e Felipe, que construíam uma ponte pênsil de palitos de madeira.

Marina reuniu as anotações. Se fosse a obra de um único gênio solitário que entrara escondido à noite, como o boato da manhã sugeria, aquela pessoa teria que dominar três técnicas diametralmente opostas, carregar latas de tinta sem ser notada pelo vigia noturno e trabalhar por pelo menos seis horas ininterruptas no escuro. A física do espaço e o tempo disponível desmentiam essa hipótese. Quando confrontou os registros de entrada e saída da portaria com as declarações dos colegas, as peças começaram a se encaixar de maneira muito diferente.

Lúcia foi a primeira a admitir sua participação, visivelmente receosa de levar uma advertência. Na quarta-feira à tarde, durante uma aula vaga, ela notara que o compensado estava riscado com marcas feias de sapato e decidiu cobrir o fundo com sobras de carvão do ateliê, desenhando as raízes estruturais apenas como um esboço espontâneo de estudo anatômico de plantas. "Eu pretendia apagar no dia seguinte, mas esqueci meu pano em casa", confessou ela.

Samuel, por sua vez, vira o rascunho de Lúcia no início da quinta-feira e supusera que a escola havia criado um mural coletivo temporário. Pegando as sobras de tinta cinza e marrom do projeto de maquetes — colando a base com a fita verde-esmeralda para delimitar o rodapé —, preencheu as massas dos troncos e cabos industriais com espátula durante o almoço. No final da tarde, ao ver a composição já encorpada e instigante, o grupo do clube de ciências que preparava um herbário achou que faltava vida orgânica. Um deles, usando canetas de nanquim trazidas de casa, desenhou as aves e a fiação aérea detalhada antes de o portão fechar às dezoito horas.

Nenhum dos envolvidos havia combinado a ação prévia com os outros. Cada participante encontrou uma etapa inacabada, presumiu que havia uma permissão tácita ou um propósito colaborativo em andamento e acrescentou sua própria linguagem gráfica, preservando a coerência do conjunto por pura sensibilidade visual.

Quando Marina e Otávio submeteram o texto da reportagem à revisão de dona Heloísa antes da impressão oficial do Correio Escolar, a diretoria decidiu manter o painel até o término das reformas. O retângulo em branco no canto inferior continuou sem um nome singular, funcionando como um testemunho silencioso de que nem todo mistério nasce de um segredo guardado, mas às vezes de uma sequência de gestos anônimos que se completam por acaso.

Glossário
compensado:
Placa de madeira formada por camadas finas sobrepostas e coladas sob pressão, comum em tapumes de construção.
virtuosismo:
Extraordinária habilidade técnica ou destreza na execução de uma atividade artística.
tangível:
Que pode ser tocado ou percebido claramente pelos sentidos; real, concreto.
interdisciplinar:
Que integra ou estabelece conexões práticas entre duas ou mais disciplinas escolares.
diametralmente:
De modo inteiramente oposto; em sentido completamente contrário.
esboço:
Primeiro traçado ou desenho rápido e provisório de uma obra antes de sua finalização.
herbário:
Coleção organizada de espécimes de plantas secas e catalogadas para fins de estudo científico.
tácita:
Que não foi declarada com palavras, mas está subentendida por gestos ou circunstâncias.
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Sobre este texto de conto para o 9º ano

“O mural que ninguém assinou” é um texto de conto sobre Investigação escolar, escrito para o 9º ano. A leitura leva cerca de 7 minutos (990 palavras). O texto inclui um quiz interativo e uma atividade para imprimir com perguntas de compreensão e gabarito.

Este texto é gratuito?

Sim. Você pode ler “O mural que ninguém assinou” gratuitamente online e baixar uma atividade em PDF com perguntas de compreensão e gabarito.

Para qual ano escolar é “O mural que ninguém assinou”?

O texto foi escrito para o 9º ano: um texto de conto sobre Investigação escolar, com leitura de aproximadamente 7 minutos (990 palavras).

O que acompanha este texto?

Um texto ilustrado, um glossário de termos importantes, perguntas de compreensão com gabarito e um quiz interativo.

Posso adaptar o texto para meus alunos?

Sim. Com uma conta gratuita, você pode usar o Remix para adaptar o texto a outro ano escolar ou traduzi-lo para outro idioma.