O Último Ensaio Antes da Apresentação


A sala de música da Escola Municipal Primavera guardava o cheiro característico de madeira polida e feltro velho, misturado ao calor do fim de tarde de uma quinta-feira abafada. Faltavam menos de vinte e quatro horas para a mostra cultural anual, e os quatro integrantes do conjunto instrumental do 9º ano sabiam que aquele era o momento definitivo. O ar, no entanto, parecia mais pesado do que o normal. Não eram apenas as partituras espalhadas pelo chão ou os cabos embaraçados que geravam desconforto; era a dissonância evidente entre os próprios músicos.
Clarice mantinha as duas mãos apoiadas sobre as teclas brancas do teclado, a postura impecável e os olhos cravados no relógio de parede. Havia semanas ela defendia que o grupo precisava manter o arranjo original, clássico e milimetricamente ensaiado. Para ela, a precisão técnica era a única salvaguarda contra o nervosismo diante de um auditório lotado de pais e professores. Por outro lado, Rodrigo, sentado diante da bateria, girava uma baqueta entre os dedos com um desdém inquieto. Ele insistia em transformar a introdução lenta em uma batida mais sincopada, com influências de ritmos urbanos contemporâneos, sustentando que a versão atual soava maçante e previsível para o público jovem da escola.
— Se a gente continuar nessa toada burocrática, Rodrigo, ninguém vai prestar atenção aos detalhes harmônicos que passamos dois meses lapidando — disse Clarice, sem tirar os dedos do teclado, a voz tensa, mas contida. — Precisão é respeito com quem está nos ouvindo. Uma mudança de compasso de última hora só vai criar insegurança.
— Não é desrespeito, Clarice, é vivacidade — rebateu o garoto, batendo o pé no pedal do bumbo, soltando um baque abafado que fez os pratos vibrarem. — A música tem que respirar. Do jeito que você quer, parece que estamos preenchendo um formulário, não tocando num palco de verdade. Se a plateia não se conectar nos primeiros trinta segundos, já era.
Entre eles, Mariana segurava o contrabaixo elétrico, observando o atrito em silêncio. Como baixista, seu papel sempre fora construir a ponte invisível entre o rigor das notas de Clarice e o pulso livre de Rodrigo. Ela compreendia o pavor legítimo de Clarice em relação ao erro: no ano anterior, uma falha na afinação no início da apresentação desestabilizara o grupo por completo. Mariana lembrava-se bem de quanto Clarice havia treinado desde então para evitar qualquer imprevisto. Ao mesmo tempo, reconhecia que a crítica de Rodrigo fazia sentido; o arranjo parecia mecânico demais, quase desprovido de entusiasmo.
O quarto integrante, Tiago, guardava seu violão de náilon no suporte, cruzando os braços. Ele era o mais comedido dos quatro, mas sabia que o tempo regulamentar do ensaio estava se esgotando rapidamente. O vigia do colégio já havia passado pelo corredor duas vezes, conferindo o chaveiro pesado que anunciava o fechamento do prédio às dezoito horas.
— Discutir estética agora não vai resolver nossa falta de sincronia — interveio Mariana, dedilhando a corda ré para quebrar o silêncio tenso que se instalara. — O problema real não é o estilo, é que estamos puxando a corda para lados opostos. Clarice tem razão quando diz que improvisar do zero amanhã é perigoso. Mas o Rodrigo também está certo ao apontar que o andamento está morno.
Clarice respirou fundo, baixando os ombros levemente. Sabia que a colega não estava tomando partido, mas tentando encontrar uma saída pragmática. Rodrigo descansou a baqueta sobre a caixa da bateria, esperando a continuação.
— E se nós não mexermos na introdução, mas mudarmos a transição para o refrão? — sugeriu Tiago, apontando para o terceiro compasso da página dois na partitura de Clarice. — Nós mantemos a entrada sóbria, exatamente como a Clarice treinou e decorou, o que garante a segurança de todo mundo. Quando o baixo e a bateria entrarem juntos no compasso dezesseis, o Rodrigo puxa a levada mais dinâmica que ele quer. Eu dobro o ritmo no violão para amarrar tudo.
A proposta exigia que ambos cedessem um pouco do controle. Rodrigo encarou o bater de pés ritmado de Mariana, que já testava a marcação sugerida, marcando um pulso firme e encorpado. Clarice olhou mais uma vez para a partitura, folheou a página marcada com anotações a lápis e tocou um acorde simples, ouvindo como ele ressoava junto à sugestão de Tiago.
— Se fizermos isso, Rodrigo, você precisa cravar o tempo sem acelerar no meio da frase — ponderou ela, voltando a olhar para o colega, desta vez sem o tom defensivo de antes. — Posso segurar as notas longas para dar espaço à levada, desde que o andamento não vire uma corrida.
— Combinado. Eu mantenho o metrônomo mental travado nos oitenta batimentos — concordou Rodrigo, ajeitando o banco da bateria com determinação renovada.
Mariana sorriu discretamente e deu a contagem com três toques firmes das pontas dos dedos na madeira do baixo. Quando a música começou, a introdução soou limpa, segura e exata sob os dedos ágeis de Clarice. Ao chegarem ao décimo sexto compasso, o ataque firme da bateria e a cadência do contrabaixo não desmancharam a harmonia, mas deram ao tema uma energia nova, equilibrada e vibrante. Quando a última nota se extinguiu no espaço silencioso da sala, ninguém precisou dizer nada: o arranjo havia encontrado sua voz definitiva.
- dissonância:
- Falta de harmonia entre sons simultâneos; por extensão, divergência ou desacordo entre pessoas.
- salvaguarda:
- Garantia, mecanismo de defesa ou recurso empregado para proteger algo contra danos ou imprevistos.
- sincopada:
- Execução rítmica em que o tempo fraco se prolonga sobre o tempo forte, criando dinamismo inesperado.
- burocrática:
- Maneira excessivamente presa a regras formais e rotinas, resultando em falta de espontaneidade.
- afinação:
- Ajuste preciso da altura e da frequência das notas de um instrumento musical.
- comedido:
- Pessoa que age com moderação, ponderação e cautela, evitando atitudes exageradas.
- pragmática:
- Postura voltada a soluções práticas e eficientes, priorizando a utilidade direta em vez de teorias.
- cadência:
- Sucessão regular e harmoniosa de batidas, acordes ou movimentos sonoros que organizam o ritmo.
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Sobre este texto de conto para o 9º ano
“O Último Ensaio Antes da Apresentação” é um texto de conto sobre Trabalho em Equipe, escrito para o 9º ano. A leitura leva cerca de 6 minutos (878 palavras). O texto inclui um quiz interativo e uma atividade para imprimir com perguntas de compreensão e gabarito.


