Uma cadeira vazia no clube de leitura


A biblioteca da Escola Municipal Cecília Meireles ficava no final de um corredor sombreado pelo pátio dos fundos, onde o barulho das conversas do intervalo quase não chegava. Toda quinta-feira, às três da tarde, os seis integrantes do grêmio de leitura se acomodavam ao redor da grande mesa oval de fórmica marrom. Naquela tarde de outono, no entanto, havia uma cadeira de espaldar alto completamente desocupada entre Lucas e Mariana. A cadeira pertencia a Gabriel, que pelo segundo encontro consecutivo não aparecera, sem enviar qualquer recado pelo mural de avisos ou pelo correio eletrônico que o grupo mantinha com o professor orientador.
Mariana ajustou os óculos no topo do nariz, alisou a lombada do livro que haviam escolhido para o bimestre — uma coletânea de contos sobre viagens e descobertas — e pigarreou antes de abrir a discussão.
— Não faz muito sentido continuar adiando o debate por causa de quem nem se deu ao trabalho de justificar a ausência — disse Mariana, ajeitando seu caderno de anotações com gestos enérgicos. — Na ata da última reunião, nós combinamos que a assiduidade era o pilar deste clube. Se alguém simplesmente decide não vir, demonstra que as discussões aqui não têm a mesma relevância para si quanto têm para os outros. Essa falta afeta a dinâmica inteira do grupo.
Lucas, que estava sentado com as mãos apoiadas sobre os joelhos, franziu a testa e balançou a cabeça de modo comedido, discordando de forma silenciosa antes de tomar a palavra.
— Você está julgando a atitude dele a partir de uma suposição bem rígida, Mariana — ponderou Lucas, olhando diretamente para o assento desocupado. — No último encontro em que esteve aqui, quando analisamos o conto sobre o farol isolado, Gabriel trouxe duas páginas inteiras de observações manuscritas. Ele não é uma pessoa indiferente. Talvez a maneira dele de participar seja diferente da nossa. Durante as conversas mais intensas, ele costumava recuar um pouco, como se precisasse de espaço para digerir as opiniões divergentes antes de formular uma resposta. A ausência física não significa necessariamente falta de interesse; pode ser resultado de um desconforto com o ritmo que impomos.
Sofia, aluna do 9º ano que recentemente assumira a editoria do jornalzinho escolar, tirou um lápis de trás da orelha e começou a registrar palavras soltas em uma folha pautada. Ela pretendia redigir uma crônica fictícia sobre convivência juvenil para a próxima edição do mural, usando reflexões sobre convivência em grupo sem citar nenhum colega nominalmente, cumprindo o acordo de que todos os textos seriam revisados pelo professor antes de irem para a impressão.
— O Lucas tocou em um ponto interessante — observou Sofia, erguendo os olhos do papel. — Mas há outro lado nessa história. Sentir-se acolhido em um coletivo exige uma via de mão dupla. Quando nós propusemos o clube, a ideia era criar um espaço seguro para expor pontos de vista sem receio de repreensão. Se ele percebia o ambiente de uma forma tão hostil a ponto de preferir se afastar, cabe a nós perguntar se nossas réplicas não estavam soando categóricas demais, como se existisse apenas uma leitura autorizada para cada história.
— Ninguém nunca foi hostil com ninguém aqui dentro — interveio Mariana, com o tom de voz um pouco mais elevado, embora sem perder a compostura habitual. — Todos tiveram exatamente o mesmo tempo de fala estipulado pelo cronômetro da mesa. Nós criamos um método transparente para evitar monólogos e garantir a equidade. Se alguém prefere o silêncio absoluto ao invés de usar o tempo que tem garantido pelo regulamento, não se pode culpar o método por uma hesitação que é pessoal.
Lucas pegou o exemplar do conto que estava sobre a mesa e folheou as páginas marcadas com pequenos papéis coloridos. Ele lembrou-se de um momento específico, duas semanas atrás, quando o grupo discutia o desfecho do protagonista de uma das histórias. O personagem decidira abandonar a segurança de um vilarejo pacato para se aventurar em uma terra desconhecida, mesmo sabendo que não haveria garantias de acolhimento em lugar algum.
— Lembrem do que o Gabriel disse sobre aquele desfecho — insistiu Lucas, apontando para uma anotação feita a lápis na margem de sua folha. — Enquanto a maioria de nós via a partida do herói como um ato de coragem incontestável, Gabriel sugeriu que aquilo era uma fuga, motivada pelo medo de ser invisível entre pessoas que julgavam conhecê-lo plenamente. Nós rimos daquela interpretação, lembram? Dissemos que era um exagero dramático e passamos rapidamente para o tópico seguinte. Ele não falou mais nada pelo restante daquela tarde.
Um silêncio momentâneo tomou conta da mesa redonda. Mariana olhou para a própria caneta, girando-a entre os dedos polegar e indicador. Sofia continuava a anotar observações silenciosas, com a expressão concentrada.
— Se rimos, foi de maneira espontânea, pelo inusitado da ideia, e não por deboche — disse Mariana, agora com a voz mais baixa e reflexiva. — Interpretações literárias são plurais por definição. Ninguém precisa concordar com todas as teorias para permanecer no grupo. O debate vive do atrito construtivo entre pensamentos opostos, e aprender a sustentar uma tese divergente faz parte do nosso processo de amadurecimento como leitores.
— Mas sustentar uma tese exige sentir que o interlocutor está disposto a escutar com empatia, e não apenas esperando a sua vez de refutar o argumento com base nas regras — rebateu Lucas, sem aspereza na voz. — Quando alguém se sente dissonante da maioria o tempo todo, o peso do grupo pode se tornar intimidador, mesmo quando ninguém tem a intenção deliberada de constranger.
Sofia finalizou uma anotação e repousou o lápis sobre a mesa.
— Talvez a questão central não seja encontrar um culpado pelo afastamento nem validar uma justificativa única — comentou Sofia. — Uma ausência pode ser lida de dezenas de maneiras: desinteresse, incompatibilidade, cansaço ou simplesmente a escolha legítima de procurar outro espaço onde a voz própria ecoe melhor. O desafio para nós, enquanto grupo que continua aqui reunido, é saber se estamos dispostos a deixar a porta destrancada sem impor condições de retorno.
Mariana suspirou devagar, guardou o cronômetro no estojo e voltou a abrir o conto previsto para aquela tarde. Ela correu os olhos pelas primeiras linhas da narrativa, mas antes de começar a ler em voz alta, puxou a cadeira vazia alguns centímetros para a frente, alinhando-a com as demais ao redor da mesa oval.
- assiduidade:
- Hábito ou compromisso de comparecer com regularidade e constância a um local ou atividade.
- pilar:
- Elemento essencial de sustentação; base fundamental que mantém uma ideia ou estrutura.
- divergentes:
- Que tomam direções diferentes; opiniões ou caminhos que discordam entre si.
- equidade:
- Disposição de agir com imparcialidade, assegurando condições justas e equilibradas a todos.
- hesitação:
- Estado de dúvida, incerteza ou pausa antes de tomar uma atitude ou emitir uma opinião.
- compostura:
- Comportamento sereno, equilibrado e discreto diante de situações tensas.
- interlocutor:
- Cada uma das pessoas que participam ativamente de um diálogo ou conversa.
- dissonante:
- Que destoa da maioria; que apresenta som, atitude ou posicionamento discordante do conjunto.
Você também pode gostar
Sobre este texto de conto para o 9º ano
“Uma cadeira vazia no clube de leitura” é um texto de conto sobre Pertencimento, escrito para o 9º ano. A leitura leva cerca de 7 minutos (1.067 palavras). O texto inclui um quiz interativo e uma atividade para imprimir com perguntas de compreensão e gabarito.


